segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 

UM DEUS CIUMENTO E VINGATIVO

Uma leitura de Dt 13,7-12

Shigeyuki Nakanose, svd

Maria Antônia Marques

Centro Bíblico Verbo

 

Intolerância, condenação e perseguição contra outras religiões e divindades também fazem parte da realidade experimentada em nossa sociedade. Basta recordar notícias, como por exemplo: “Sínodo da Amazônia: ultraconservadores roubam estátua indígena de igreja e jogam no Rio Tibre em Roma. A imagem era uma réplica da que foi usada em procissão e orações no Vaticano, durante o Sínodo dos Bispos sobre a região amazônica. Vaticano afirma que se tratava somente de uma representação da ‘sacralidade da vida’. Grupos ultraconservadores chamaram de ícone ‘pagão’”.[1]

Com frequência ouvimos notícias de ataques contra diferentes igrejas e movimentos religiosos. Em nome de uma fé pura, destroem-se símbolos religiosos de diferentes igrejas. O Antigo Testamento também registra várias perseguições contra outras religiões e divindades. Um das perseguições mais conhecidas é a reforma do rei Josias que destrói os santuários do interior e as divindades domésticas dos camponeses em nome de Javé, o Deus do Estado, seguindo a lei escrita em Dt 13,7-12. Por que o rei executa a perseguição? Quem é Javé oficial?   

           

 

1. Javé oficial persegue outras divindades com violência

 

Com característica típica de uma antiga bênção semita, Jacó proclama as bênçãos para os seus filhos em Gn 49,1-28 – as “bênçãos de Jacó”. Para José, é reservada uma bênção mais longa, por causa da proeminência da “Casa de José” (Efraim e Manassés) na história de Israel:

 

José é potro selvagem, potro junto à fonte, burros selvagens junto ao muro. Os arqueiros os irritam, desafiam e atacam. Mas o seu arco fica intacto e seus braços se movem velozes, pelas mãos do Poderoso de Jacó, do Pastor e Pedra de Israel, pelo Deus de seu pai que o socorre, por Shadai que o abençoa: as bênçãos que descem do céu e as bênçãos do oceano embaixo, bênçãos das mamas e do útero. As bênçãos de seu pai são superiores às bênçãos dos montes antigas e às atrações das colinas eternas. Que elas venham sobre a cabeça de José, sobre a fronte do consagrado entre os irmãos (Gn 49,22-26).

           

            Como a maioria dos textos do Antigo Testamento, a última redação do texto das “bênçãos de Jacó” foi feita por volta do ano 400 a.C., no período de Neemias e Esdras, no qual o monoteísmo de Javé foi consolidado: “Portanto, reconheça hoje e medite no coração: Javé é que é o único Deus, tanto no alto do céu, como cá embaixo na terra. Outro não existe (Dt 4,39; cf. Ro, 2018,33-73).

Apesar disso, as bênçãos de José conservam, em Gn 49,25, as várias denominações antigas de deuses – o Deus (El) de seu pai; Todo-Poderoso (Shadai); o Deus das mamas e do útero – e refletem a sociedade politeísta das tribos de Israel, formadas de diversas origens. Nas últimas décadas, a arqueologia e as pesquisas literárias têm comprovado que a maioria dos primeiros israelitas era cananeus e prestava cultos aos vários deuses e deusas, cultuados na sociedade de Canaã:

 

- El: “‘Eu sou o El de Betel, onde você (Jacó) ungiu uma coluna sagrada e me fez um voto’. Agora levante-se! Saia dessa terra e volte para a terra de seus parentes” (Gn 31,13). El é o Deus supremo do panteão de Canaã e de Ugarit (LANG, 2002, 24-25). A proeminência do Deus El reflete o nome “Israel”, que significa “El é quem luta” (cf. Gn 32,29);

- Shadai: “Deus falou a Moisés: ‘Eu sou Javé. Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó como El Shadai, mas a eles não dei a conhecer meu nome de Javé” (Ex 6,2-3). El Shadai é o Deus das estepes, das montanhas (RÖMER, 2016, 84-85). Na Bíblia grega (LXX), “Shadai” é traduzido por “todo-poderoso”;

- Elohim: “‘Eu sou o Deus (Elohim) do seu pai, o Deus (Elohim) de Abraão, Deus (Elohim) de Isaac, Deus (Elohim) de Jacó’. Moisés cobriu o rosto, pois teve medo de olhar diretamente para Deus (Elohim)” (Ex 3,6). Elohim é o Deus dos pais, o Deus dos antepassados (Gn 31,53; cf. VAN DER TOORN, 1996, 255-265).

- Baal, “o senhor”: “E, aconteceu, nessa mesma noite, que Javé disse a Gedeão: ‘Você destruirá o altar de Baal que pertence a seu pai, e quebrará o poste sagrado da deusa Aserá que está ao lado’” (Jz 6,25). Com o movimento da centralização do culto em Jerusalém, em nome de Javé, o Deus nacional, os redatores deuteronomistas proibiram cultuar qualquer outra divindade. Contudo, Baal, considerado proprietário do solo e divindade da chuva e da fecundidade, era bem cultuado pelos camponeses israelitas. Sua imagem foi colocada até nos santuários dos reis para promover o culto nacional (1Rs 16, 29-32; 2Rs 21,1-4; cf. RÖMER, 2016, 116-122).

- Aserá: O poste sagrado (Aserá) é o emblema da Deusa do amor e da fecundidade (Ex 34,13). Na mitologia ugarítica, Aserá é esposa de El. No Antigo Testamento, ela aparece como mulher de Baal (1Rs 16,33; 2Rs 21,3). Segundo as últimas pesquisas arqueológicas, Aserá era cultuada ao lado de Javé nos santuários israelitas (LIPINSKI, 2018,139-144). 

- Terafim: “Labão tinha ido tosquiar o rebanho, e Raquel roubou os terafins que pertenciam a seu pai” (Gn 31,19.30), Os terafins são as divindades domésticas, uma espécie de deus do lar, muitas vezes associado à fé no “efod”, um antigo objeto cultural, destinado à adivinhação (Jz 17,5: cf. FARBER, 2018, 447).

 

Agora, quem é Javé?[2] A compreensão tradicional do Antigo Testamento é marcada pelo monoteísmo, que apresenta Javé como o Deus único de Israel. No entanto, nas últimas décadas, a arqueologia e as pesquisas literárias comprovaram a existência de um panteão das divindades e Javé como uma delas, ao lado El, Baal e Aserá. Com a chegada da monarquia em Israel, Javé, o Deus do exército (Ex 15,2-3), ganha pouco a pouco o espaço e é cultuado como o Deus nacional do Estado, destronando os demais. 

Na história do reino de Israel Norte[3], o rei Jeú, junto com Eliseu, por exemplo, proclama Javé como a divindade nacional do Estado, massacrando os adoradores de Baal e Aserá:

 

Jeú reuniu todo o povo e falou: “Acab cultuou pouco a Baal. Jeú vai cultuá-lo muito mais. Agora, portanto, chamem todos os profetas de Baal, todos os seus fiéis e sacerdotes. Ninguém deve faltar, pois quero oferecer um grande sacrifício a Baal. Quem faltar, morrerá”. Jeú estava agindo com esperteza para acabar com os fiéis de Baal. [...] Jeú entrou para oferecer sacrifícios e holocaustos. Do lado de fora, porém, tinha colocado oitenta homens, com esta ordem: “Quem deixar escapar uma só dessas pessoas que eu vou entregar-lhe, pagará com a própria vida”. Logo que terminou de oferecer o holocausto, Jeú disse aos guardas e escudeiros: “Entrem e matem todos. Não deixem sair ninguém”. Os guardas e escudeiros os mataram a fio de espada e os lançaram fora. Voltaram novamente à cidade, ao templo de Baal, arrancaram as colunas sagradas do templo e as queimaram (2Rs 10,18-19.24-26). 

           

Na aliança com a Fenícia, representada pela princesa Jezabel, o rei Acab instala em Samaria o templo de Baal, o Deus nacional da Fenícia (1Rs 16,29-34). Para derrubar a dinastia de Acab e tomar o poder, Jeú mata Jezabel e extermina os descendentes de Acab (2Rs 10,1-11). O fim da dinastia de Acab, com a destruição do templo de Baal, significa o fim da aliança Israel Norte com a Fenícia. Em contraposição, institui-se a dinastia de Jeú, apoiada pela Síria (FINKELSTEIN, 2015,109), o culto oficial a Javé.  A luta pelo poder transforma-se em luta de deuses: Javé, Baal, Aserá etc.

            Na história de Judá[4], o rei Ezequias promove o culto oficial a Javé, o Deus nacional, para justificar e fortalecer a centralização do culto em Jerusalém como centro religioso único, perseguindo outras manifestações religiosas:

 

Ezequias fez o que é correto dos olhos de Javé, seguindo em tudo a maneira de agir de seu pai Davi. Acabou com os lugares altos, quebrou as colunas sagradas e derrubou a Aserá. Despedaçou também a serpente de bronze que Moisés havia feito, por que os filhos de Israel ainda queimavam incenso dela. Eles a chamavam de Noestã (2Rs 18,3-4).

 

            Como a Aserá (coluna sagrada), a serpente era associada aos cultos de fertilidade. Os reis utilizavam essas divindades, populares entre os camponeses, para promover os interesses do Estado. Ao promover e escrever a reforma de Ezequias (2Rs 18,18-20), os redatores deuteronomistas, promotores da centralização do culto em nome de Javé, condenaram Aserá e a serpente como idolatria. Entretanto, o culto oficial a Javé, o Deus nacional, também era um meio de fortalecer o interesse do poder do Estado. Por exemplo, no mesmo período, Miqueias, profeta da aldeia, criticou, em nome do Javé popular, a religião do Javé nacional, promovida pelos sacerdotes e profetas da corte do rei Ezequias (Mq 2,6-11).  

            A reforma de Ezequias foi interrompida pela invasão da Assíria (701 a.C.). Com a morte de Ezequias, seu filho Manassés assumiu o poder em Judá (687-642 a.C.). Ao contrário de Ezequias, Manassés seguiu fiel à Assíra, introduzindo em Jerusalém o culto às divindades assírias: “exército do céu”.  Restabeleceu os cultos às divindades nos lugares altos, como Baal e Aserá, juntamente com Javé (2Rs 21,3).

            Os deuteronomistas condenaram Manassés como um dos piores reis de Judá por causa da sua infidelidade ao Javé oficial, apontada até como causa do exílio na Babilônia, mas a arqueologia indica que o reinado de Manassés foi um dos mais prósperos e pacíficos (KAEFER, 2015, 99-100). Vejamos os motivos desta prosperidade:

- Sendo leal a Assíria, Manassés conseguiu reinar por 45 anos num clima relativamente estável, o que incentivou o desenvolvimento de Judá: houve um grande aumento de assentamentos e do crescimento comercial.

- Com o restabelecimento dos cultos nos lugares altos (santuários), Manassés retomou as boas relações com os anciões das aldeias e seus sacerdotes dos santuários, ajudando a corte a promover a economia e o desenvolvimento do Estado.

 

Com a morte de Manassés e seu filho Amon (642-640 a,C,), Josias assumiu o trono (640-609 a.C.). Aproveitando o enfraquecimento da Assíria por causa da guerra contra a Babilônia, Josias retomou a política nacionalista de centralização e de Javé como o Deus nacional, iniciada por Ezequias, perseguindo e destruindo as divindades cultuadas no reinado de Manassés (KAEFER, 2015, 99-107):

 

O rei (Josias) mandou que o sumo sacerdote Helcias, os sacerdotes de segunda ordem e os guardas da porta tirassem do santuário de Javé todos os objetos feitos para o culto de Baal, de Aserá e de todo o exército dos céus. Os objetos foram queimados fora de Jerusalém, no vale do Cedron, e as cinzas foram levadas para Betel (2Rs 23,4).

 

            Com efeito, a eliminação do “exército dos céus” pode ser compreendida como uma declaração da política nacionalista e expansionista de Josias diante da Assíria. Mas a política nacionalista de centralização atingiu até a religiosidade popular dos camponeses:

 

Josias eliminou também os que evocam os mortos, os adivinhos, os deuses domésticos, os ídolos e todas as abominações que se viam na terra de Judá e em Jerusalém, para cumprir as palavras da Lei escritas no livro que o sacerdote Helcias encontrou na Casa de Javé (2Rs 23,24).

 

            Josias segue os mesmos princípios da reforma deuteronomista de Ezequias (o livro da lei, Dt 12-26[5]) e até radicalizou a centralização do culto a Javé, o Deus nacional, perseguindo a prática religiosa dos camponeses e destruindo objetos de culto a divindades como os deuses domésticos (terafins). O texto de Dt 13,7-12, relido e redigido no tempo de Josias, revela uma perseguição violenta (LUNDBOM, 2017,16-27).

 

2. A reforma de Josias atinge a religiosidade popular

 

            A centralização do culto a um único Deus, Javé, em Jerusalém provocou a destruição dos santuários do interior, concorrentes do templo de Jerusalém; a destruição dos objetos de culto às divindades; a morte ou destituição dos sacerdotes do interior, ou sua redução a uma categoria subalterna (2Rs 23,4-14). Toda essa violência teve motivo maior: apesar do caráter religioso da reforma, o objetivo do rei Josias era a centralização do poder socioeconômico para a sua política expansionista, que se manifestou, por exemplo, na invasão violenta do território israelita do Norte (2Rs 23,15).   

            A violência atingia até a casa e as relações familiares: “Se seu irmão, filho de seu pai ou de sua mãe, ou seu filho ou filha, ou a mulher que repousa em seu peito, ou um amigo que você quer como a si mesmo, tentarem seduzir você secretamente, convidando: ‘Vamos servir a outros deuses [...], não concorde, nem o escute. Que seu olho não tenha piedade dele, não use de compaixão, nem acoberte o erro dele. Pelo contrário, você deverá matá-lo” (Dt 13, 7-10a).

            “Seu irmão, filho de seu pai ou de sua mãe”: essa referência ao pai, o membro mais importante da família poligâmica refletia a vida da casa e as relações das famílias ampliadas da aldeia (CHRISTENSEN, 2001, 275-276). Até a família e casa se tornaram-se o alvo da reforma de Josias: o rei, por exemplo, impôs a festa da Páscoa no templo de Jerusalém (2Rs 23,21-13), até então acontecia nas casas e aldeias para celebrar e fortalecer as relações familiares de solidariedade e de convivência.

            “Vamos servir a outros deuses”: o texto não especifica os nomes de deuses. Podiam ser Baal, Aserá, deuses da fertilidade da terra, animais e mulheres, bem cultuados pelos camponeses na vida do dia a dia.  O algo da perseguição podia ser também os “deuses domésticos”, o deus do lar, que sacraliza os laços familiares da casa.

Evidentemente, a proibição do culto às divindades em casa, nas aldeias e nos santuários enfraqueceu a força e a resistência do interior, ao mesmo tempo fortalecendo o controle do Estado sobre o povo para executar a política expansionista e militar, que posteriormente levou Judá à destruição e ao exílio da Babilônia. Era a mesma política expansionista que é criticada por Jeremias, profeta dos camponeses, em nome do Javé popular (Jr 28).

“E para matá-lo, sua mão será a primeira. Em seguida, a mão de todo o povo. Apedreje-o até que morra (Dt 13,10-11a): o apedrejamento tinha dupla significação: por um lado, a pena permitia a execução coletiva; todos os membros da comunidade deviam sentir-se diretamente responsáveis pela execução da ordem; por outro, o apedrejamento, conforme a lei judaica, era aplicado àquilo que ia contra o sagrado, principalmente quando se tratava de “idolatria” (Dt 17,5), e o culpado se tornava intocável e devia ser morto, sem que nele encostassem (Ex 19,13).

“Servir a outros deuses”, portanto, era um sacrilégio e o culpado era rejeitado e morto pela comunidade, fortalecendo o controle do Estado sobre a vida cotidiana do povo. Os governantes amarravam e utilizavam as relações familiares da casa e da aldeia para impor Javé, o Deus nacional do templo de Jerusalém. A centralização do culto a serviço do poder alcançou sua função máxima e duradoura com a eliminação de qualquer infiltração de “teologia” de deuses na família e na casa, pela pena máxima de apedrejamento.

            A reforma de Josias utilizava ainda outro meio para fortalecer a centralização do culto: “Apedreje-o até que morra, pois tentou afastar você de Javé, o seu Deus, que o tirou do Egito, da casa da escravidão” (Dt 13,11), Em Dt 5-28, texto relido e ampliado no período de Josias, há várias menções sobre a tradição do êxodo – um total de 32. Além da argumentação das leis sociais, a tradição do êxodo era utilizada para justificar a imposição do Javé oficial, instituído pela corte de Josias:

·         “Cuidado consigo mesmo para não se esquecer de Javé, que o tirou do Egito, a casa da escravidão. É de Javé, o seu Deus, que você terá temor, a ele é que você servirá e pelo seu nome vai jurar” (Dt 6,12-13);

·         “Sigam a Javé, o Deus de vocês, e tenham temor a ele; observem seus mandamentos e obedeçam à sua voz; sirvam a ele e a ele se apeguem. Quanto ao profeta ou sonhador, deverá ser morto, porque propôs a rebelião contra Javé, o Deus de vocês, que tirou vocês do Egito e os resgatou da casa da escravidão, e porque procurou afastar você do caminho pelo qual Javé, o seu Deus, lhe havia mandado seguir” (Dt 13,5-6). A denominação “profeta ou sonhador” indica os sacerdotes que prestavam os cultos às divindades nos lugares altos, como Baal e Aserá, juntamente com Javé.

·         “Se você não colocar em prática todas as palavras desta lei escritas neste livro, alimentando o temor a este nome glorioso e terrível – Javé, o seu Deus – Javé ferirá você e sua descendência com pragas espantosas, pragas tremendas e persistentes, doenças graves e incuráveis. Ele voltará contra você as pragas do Egito, que o horrorizavam, e elas se grudarão em você” (Dt 28,58-60).   

 

Na tradição religiosa dos israelitas, o Deus do êxodo é uma divindade sensível ao sofrimento do povo oprimido, que escuta sua voz: “Javé disse: ‘Estou vendo muito bem a aflição do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor diante de seus opressores, pois tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci para libertá-lo do poder dos egípcios’” (Ex 3,7-8a). A fé no Javé popular, Deus libertador, morava no coração dos camponeses e era invocado, muitas vezes, no sofrimento e nos momentos de crise existencial (cf. Sl 68,2-21).

No entanto, a reforma de Josias utilizou e apropriou-se justamente do Deus do êxodo para impor a centralização do culto em Jerusalém. Com a força da imposição, esse Deus do êxodo deixou de ser a divindade sensível à vida. Pelo contrário, passou a perseguir e matar quem não obedecia à ordem do Estado, instalando o terror e o medo: “Sabendo disso, todo o Israel ficará temeroso e nunca mais se fará em seu meio ação assim tão má (Dt 13,12).   

Atenção: “deuses que nem você nem seus pais conheceram, deuses dos povos que estão ao redor de você, próximos ou distantes de você, de uma extremidade à outra da terra” (Dt 13,7b-8): o texto é um acréscimo do pós-exílio, momento em que os teocratas expulsaram os estrangeiros em nome de Javé oficial, o Deus único, e condenaram suas religiões e culturas (cf. Ne 13,23-27).

 

 

3. Javé popular, sensível às injustiças, escuta as pessoas oprimidas

 

            Miqueias, um camponês profeta no período perturbado da reforma de Ezequias (716-701 a.C), viveu no meio do povo espoliado (Mq 3,1-3) e denunciou, em nome do Javé popular, as injustiças praticadas pelos dirigentes da corte: “Ouçam isto, chefes da casa de Jacó. Prestem atenção, governantes de Israel, vocês que têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto, que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade. Os chefes de vocês proferem sentença a troca de suborno. Seus sacerdotes ensinam a troca de lucro e seus profetas dão oráculos por dinheiro” (Mq 3,9-11a).

            No entanto, os governantes contestavam as denúncias de Miqueias em nome do Javé oficial do templo de Jerusalém:

 

- “E ainda ousam apoiar-se em Javé, dizendo: ‘Por acaso, Javé não está no meio de nós? Nada de mau nos poderá acontecer!’” (Mq 3,11b);

- “Eles profetizam: ‘Não profetizem, não profetizem essas coisas! A desgraça não cairá sobre nós. Porventura a casa de Jacó foi amaldiçoada? Acabou a paciência de Javé? É isso que ele costuma fazer? Por acaso a promessa dele não é de benção para quem vive com retidão’” (Mq 2,6-7). 

 

A elite governante se vangloriava do Javé oficial do templo de Jerusalém, como fonte da graça e proteção, e insistia em sua conduta, conforme à aliança com esse Deus, e na legitimidade de ser o povo eleito e abençoado, que não sofrerá castigo algum. Javé oficial, instituído pela corte de Ezequias e fortalecido pela corte de Josias como Deus nacional de Israel, não era mais a divindade sensível às injustiças, que vê e escuta as pessoas oprimidas (MARQUES/NAKANOSE/Centro Bíblico Verbo, 2016, 48-51).

            Apesar da imposição do Javé oficial pela corte de Jerusalém, os profetas populares continuavam pregando o Deus dos pobres e oprimidos. O profeta Sofonias (640-620 a.C.), por exemplo, proclamava: “Procurem a Javé, como todos os pobres da terra que praticam o direito por ele estabelecido. Procurem a justiça, procurem a pobreza” (Sf 2,3); “Ai da rebelde, da manchada, da cidade opressora! Cidade que não escutou o chamado, que não aprendeu a lição. Ela não confiou em Javé, nem se aproximou do seu Deus. Seus oficiais são leões que rugem: seus juízes são lobos à tarde, que não comeram nada desde o amanhecer; seus profetas são uns fanfarrões, mestres de traição; seus sacerdotes profanam as coisas santas e violentam a Lei de Deus. Mas no meio dela está Javé, que é Justo, que não pratica a injustiça” (Sf 3,1-5).

As constantes críticas e exigências para uma política justa, apresentadas pelos profetas em nome do Javé popular, não evitaram o desastre nacional. Pela ambição pelo poder, os últimos reis de Judá, intrigados pelo Egito, executaram a política expansionista e provocaram as duas invasões da Babilônia, a destruição e o fim da realeza (587 a.C.).

Durante o tempo do exílio, a cidade de Jerusalém foi devastada; os governantes, massacrados; funcionários do templo, pequenos comerciantes, artesãos e agricultores foram levados como escravos para o exílio da Babilônia (2Rs 25,1-21): “Seu povo é um povo espoliado e roubado, todos presos em cavernas, trancados em prisões. Era saqueado, e ninguém o libertava. Despojado, e ninguém dizia: ‘Devolvam isso’” (Is 42,22).

A situação de abandono e de desolação: violência física e sexual, fome, sofrimento e desespero. Apesar disso tudo, a fé teimosa dos pobres oprimidos no Javé popular ressurgiu com o rosto do Deus Pai e Mãe, sensível às injustiças e aos sofrimentos do povo:

 

- “Não tenha medo, pois eu estou com você. Não precisa olhar com desconfiança, pois eu sou o seu Deus. Eu fortaleço você, eu o ajudo e o sustento com minha direita vitoriosa. [...] Não tenha medo, vermezinho Jacó, bichinho Israel. Eu mesmo o ajudarei – oráculo de Javé. Seu protetor é o Santo de Israel” (Is 41,10. 14);

- “Sião dizia: ‘Javé me abandonou, o Senhor me esqueceu!’ Mas pode a mãe se esquecer do seu nenê? Pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você. Veja! Eu tatuei você na palma da minha mão” (Is 49,14).    

 

O fim do exílio fez o povo sonhar de novo com uma sociedade de justiça e fraternidade, mas a história repetiu-se, como no tempo da monarquia. Após o exilo, o império Persa e seus súditos, como Neemias e Esdras, com o Deus oficial da teologia da retribuição baseada na lei do puro e do impuro, exploraram e oprimiram o povo através do templo, cobrando o sacrifico de purificação, o dízimo etc. Javé oficial do templo foi consolidado como Deus único, Criador do universo e Senhor da história.

Fora do templo, a elite dirigente cometia as injustiças: “Acontece que vocês, mesmo quando estão jejuando, só cuidam dos próprios interesses e continuam explorando quem trabalha para vocês. Vejam! Vocês jejuam entre rixas e discussões, golpeando sem piedade” (Is 58,3-4); “Muitos mudam os marcos da divisas, roubam os rebanhos e os levam a pastar. Levam embora o jumento que pertence ao órfão, e penhoram o boi que é da viúva [...] Arrancam o órfão do peito materno e penhoram quem é pobre. Da cidade sobem os gemidos dos moribundos e, suspirando, os feridos pedem socorro, e Deus não dá ouvido a essa infâmia” (Jó 24,2-3.9.12).

A última frase confirma que o Deus oficial do templo não escuta os gritos dos pobres oprimidos porque eles não têm condição de oferecer os sacrifícios de purificação e são “impuros”. Os pobres eram abandonados e oprimidos sem limite! Contudo, Javé popular não abandonava os pobres. Enquanto os governantes teocratas apresentavam esse deus oficial do templo, poderoso, ciumento e vingativo, para controlar e excluir os impuros – pobres, doentes, estrangeiros –, a fé teimosa no Javé popular continuava fazendo os pobres oprimidos afirmarem que Javé, o Deus sensível às injustiças e às violências, via, ouvia, conhecia os sofrimentos, tornando-se presença libertadora junto aos oprimidos:

 

- “Eu sei que o meu protetor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó. E ainda que tenham cortado minha pele, na minha carne eu verei a Deus. Então, eu mesmo o verei! Meus olhos poderão vê-lo, e não um estranho. Meus rins se consomem dentro de mim” (Jó 19.25-27);

- “Escute-me, porque vou falar. Vou interrogá-lo, e você (Deus) me responderá. Eu te conhecia só de ouvido. Mas agora meus olhos te vêem. Por isso, eu tenho horror de mim e me arrendo sobre o pó e a cinza” (Jó 42,4-6). Jó, pobre oprimido, é “catequizado” pelos teocratas: Deus se manifesta só no santo dos santos do templo. Agora, pela experiência dura da vida cotidiana, ele percebe e experimenta que o Deus sensível à dor humana está no meio dos sofredores impuros;

- “Porque ele não desprezou a aflição do pobre, nem escondeu dele a sua face. Quando o pobre pediu auxílio, ele escutou” (Sl 22,25).

 

A teologia do Javé oficial e sua lei do puro e do impuro perpassaram a história, consolidaram-se e chegaram ao Sinédrio do tempo de Jesus. Fariseus pregavam a salvação pela estrita observância da lei do puro e do impuro e impunham o Deus poderoso, legalista e castigador a fim de incentivar o medo na população judaica, visando o controlo. Com a imposição do temor ao “sagrado” do templo de Jerusalém, proibiram até o uso do nome de Javé, designando-o como “Meu Senhor” (adonai em hebraico).

Porém, a fé no Javé popular não se apagou. Os pobres afirmavam que Javé, Deus libertador e misericordioso dos impuros, estava meio deles: “Eu te louvo. Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado” (Lc 10,21). Deus Pai dos pequenos! O Deus da vida não se encontra na observância legalista de normas, rituais e doutrinas dos "sábios” autossuficientes, mas no seguimento dos “pequenos” ao amor de Deus.

No movimento de Jesus de Nazaré, Deus continua sendo Deus paternal e maternal da gratuidade que escuta e acolhe as pessoas em situação de pobreza extrema, sem recursos e sem esperança, na Galileia: “Felizes vocês, os pobres, porque de vocês é o Reino de Deus. Felizes vocês, que agora têm fome, porque serão saciados. Felizes vocês, que agora choram, porque hão de sorrir” (Lc 6,20-21),

No seguimento de Jesus, a comunidade joanina destaca-se ao apresentar o Deus Pai do amor no mundo em que o império romano utilizava a religião imperial, com o culto ao imperador divinizado e seus deuses poderosos, para impor e legitimar o poder e a dominação (NAKANOSE/MARQUES/CENTRO BÍBLICO VERBO, 2019, 116-129):

 

- “Eu sou o bom pastor: conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, e exponho a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,14-15);

- “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23);                    

- “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para podermos viver por meio dele” (1Jo 4,8-9).  

 

É preciso que estejamos sempre dispostos e dispostas a renovar nossa aliança com o Deus “popular”, sensível às injustiças, que escuta as pessoas oprimidas e caminha com elas porque “Deus é amor”. Que a fé no Deus da vida, vivenciada pelo amor e pela justiça, fortaleça e anime a nossa caminhada para que todos tenham a vida, sobretudo no Brasil, que já soma 13,5 milhões de miseráveis que sobrevivem com 145 reais mensais.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CHRISTENSEN, Duane L.. Deuteronomy 1:1-21:9. Word Biblical Commentary vol. 6A. Nashiville: Thomas Nelson Publishers (Zondervan), 2001.

DEVER, William G. Beyond the Texts, an Archaeological Portrait of Ancient Israel and Judah. Atlanta: SBL Press, 2017.

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[2] Sobre a origem de Javé, cf. RÖMER, Thomas. A origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome. São Paulo: Paulus, 2014; SMITH, Mark S. “YHWH´s Original Character: Questions about an Unknown God”. In: VAN OORSHOT, Jürgen/WITTE Markus (org.). The Origins of Yahwism. Berlin/Boston: De Gruyter, 2019, pp. 23-43.

[3] Sobre a história de Israel Norte, cf. LIPINSKI, Edward. A history of the Kingdom of Israel. Leuven: Peeters, 2018, pp. 33-128

[4] A arqueologia comprova um grande desenvolvimento em Judá, tanto na capital Jerusalém quanto no interior, a partir de 722 a.C. Sobre os dados arqueológicos, cf. DEVER,William G. Beyond the Texts:  an Archaeological Portrait of Ancient Israel and Judah. Atlanta: SBL Press. 2017, pp. 547-627.

[5] Para a introdução literária, sociológica e histórica do livro do Deuteronômio, nos livros em português, cf. RÖMER, Thomas, A chamada Histórica Deuteronomista. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008; GALVAGNO, Germano/GIUNYOLI, Federico. Pentateuco. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

 

“Não explore o assalariado necessitado e pobre”

Uma leitura de Dt 24,10-22

Shigeyuki Nakanose

Maria Antônia Marques

Centro Bíblico Verbo

 

 

Lemos no jornal Folha de São Paulo a respeito da situação de Jadilson Morais da Silva, 25, “o jantar na minha casa hoje serão quatro ovos que restaram, que serão repartidos entre cinco pessoas. O que mata a fome do meu filho é a creche. Aqui em casa não tem nada para dar para ele. Passo fome, às vezes, sim. Fico o dia todo sem comer nada. Comemos porque meu irmão às vezes ganha uma cesta na igreja, algum vizinho ajuda, a gente recebe uma caixinha de leite”, diz ele.

A única renda da casa hoje é a pensão que a mãe de Jadilson recebe, de R$ 1.500. O problema é que R$ 300 estão comprometidos logo de cara, com as prestações de um empréstimo que pagou para enterrar o marido. Outros R$ 650 vão para o aluguel (que aumentou recentemente). As outras contas passam de R$ 100. Jadilson já trabalhou em metalúrgica, lava-rápido e transportadora, mas ficou desempregado. Na última segunda-feira, 15, conseguiu um emprego numa loja de pipas, em que espera ganhar cerca de R$ 800 por mês, se sua produção for boa.

            “A gente tinha R$ 900 em conta atrasada, e iam cortar nossa luz. Mas o pessoal do emprego do meu irmão fez uma vaquinha para pagar”, conta. “O que salvou essa semana foi a comprinha que uns jornalistas fizeram para ajudar, pagaram até a fralda do meu filho.”[1]

Em meio à realidade de sofrimento, Jadilson e sua família experimentam a solidariedade de vizinhos e pessoas amigas. O Antigo Testamento também registra a solidariedade e as leis sociais em favor dos pobres e necessitados, como: “Não explore o assalariado necessitado e pobre, seja ele um de seus irmãos, seja um imigrante que vive em sua terra, nas portas de sua cidade” (Dt 24,11). Diante da realidade sofrida do Brasil, na qual os pobres continuam sendo explorados, podemos nos perguntar: quais as leis sociais constituídas em favor dos necessitados, na Bíblia?

1. As leis sociais em favor da vida

Israel nasceu, como povo e nação, de uma confederação de tribos na região montanhosa de Canaã, por volta de 1200 a.C. Entre os anos 1200 e 1000 a.C., a população dessa região passou de 12 mil para 75 mil pessoas, e os locais povoados (sítios ou pequenas aldeias) passaram de 29 para 254. Na região de Betel e Siquém, por exemplo, formaram-se as tribos de Benjamim, Efraim e Manassés. Formou-se uma sociedade tribal oposta à monarquia centralizada cujo poder estava concentrado nas mãos de um rei, uma liderança vitalícia.

            A tribo, formada por um grupo de clãs (as famílias ampliadas) que tinham um mesmo ancestral, era marcada pelas relações de parentesco, de solidariedade, hospitalidade e apoio mútuo em defesa da vida. Com a sociedade tribal, os primeiros israelitas, que tinham mentes e corpos marcados pela estrutura opressora das cidades-estado e do Império Egípcio, tentaram eliminar a desigualdade e construir a sociedade sem concentração de riqueza e poder.

            Na vida cotidiana das aldeias “comunitárias”, o espírito de apoio mútuo e de partilha transparecia nas leis sociais antigas: “Quando você entrar no pomar do seu próximo, pode comer à vontade, até ficar satisfeito, mas não pode carregar nada no cesto. E quando entrar na plantação do seu próximo, pode apanhar espigas com a mão, mas não passar a foice na plantação do seu próximo” (Dt 23,25-26).

            Contudo, não teria sido pacífica a manutenção da organização social de igualdade e solidariedade entre 1200 e 1000 a.C., cerca de duzentos anos. Houve vários fatores internos e externos que atormentaram e ameaçaram a vida dos israelitas: a chegada constante de novos migrantes, forasteiros, estrangeiros e pobres nas regiões montanhosas, as guerras provocadas pelas invasões dos reis cananeus, a seca prolongada, as doenças, as disputas entre os clãs etc. Tudo isso provocou a morte, o empobrecimento e a desigualdade. A Bíblia preserva várias leis sociais para impedir as desigualdades sociais no período tribal, eis algumas:

 

a)    “Não explore o migrante nem o oprima, porque vocês foram migrantes no Egito. Não maltrate a viúva nem o órfão, porque, se você os maltratar e eles clamarem a mim, eu escutarei o clamor deles” (Ex 22,20-22). A lei protege os novos migrantes nas aldeias camponesas, nas montanhas, e viúvas e órfãos que perdiam os chefes das famílias por guerras e doenças; garantia também os direitos aos necessitados e assegurava a convivência das aldeias.  

b)    “A terra não poderá ser vendida para sempre, porque a terra pertence a mim, e vocês são para mim migrantes e hóspedes temporários. Por isso, de qualquer terra que vocês possuírem, concedam o direito de resgate da terra. Se um irmão seu cai na miséria e precisa vender algo de sua propriedade, o parente mais próximo dele (o go'el), que tem o direito de resgate, irá até ele e resgatará aquilo que o irmão tiver vendido” (Lv 25,23-25). Segundo a tradição de Israel, o êxodo, com a libertação e a terra prometida, é ação salvífica de Deus. A terra é “dom” de Deus e “herança” para todo o povo, de modo que todas as famílias possam viver dela (Nm 26,52-56). Se alguém, por circunstâncias diversas, for obrigado a vender sua terra, seu protetor, o go'el, terá direito de resgatá-la: a lei do goelato. É a lei que impede o acúmulo de terra e evita o surgimento de desigualdades sociais.

c)    “Quando irmãos habitam juntos e um deles morre sem deixar filhos, a viúva não deve sair para casar-se com um estranho. Um cunhado dela vai se achegar a ela e tomá-la como mulher, cumprindo o dever de cunhado. O primeiro filho que nascer receberá o nome do irmão falecido, para que o nome dele não se apague em Israel” (Dt 25,5-6; cf. Gn 38,1-30). É a lei do levirato (levir = “cunhado”), que visa assegurar um lar para a viúva e suas crianças e conservar a herança (terra e casa) no âmbito familiar.

d)    “Se um boi chifrar um homem ou mulher e lhe causar a morte, o boi será apedrejado, e ninguém comerá da sua carne. O dono do boi ficará sem castigo. Se o boi chifrava antes e o dono tinha sido avisado e não o prendeu, o boi será apedrejado e seu dono será morto. Se lhe for exigido resgate, então pagará o que exigirem dele em troca de sua vida” (Ex 21,28-30). O boi com o arado na lavoura foi introduzido em Israel por volta de 1050 a.C., aumentando a produção. Era necessário controlar os donos de bois que acumulavam a propriedade, a terra e o poder, em detrimento das outras famílias.

 

Estas leis foram escritas em épocas mais tardias, mas preservam a tradição social do período tribal: solidariedade e igualdade. Entretanto, o surgimento da monarquia em Israel – de modo especial em Israel Norte – levou a uma elaboração acelerada de leis sociais que garantissem o direito de todos na defesa e na preservação da vida.

A monarquia concentrava os poderes. O rei assegurava as arrecadações de taxas, tributos e pedágios através do palácio e do exército para a mordomia da elite dirigente (Am 6,1-6). Os santuários do rei alienavam e atraíam os fiéis para a religião oficial, espoliando-os com os sacrifícios e as ofertas (Am 5,21-24). E, com o comércio injusto e o tribunal corrupto, a elite explorava os camponeses: “Eles odeiam aqueles que se defendem na porta e têm horror de quem fala a verdade. Porque esmagam o fraco, cobrando dele o imposto do trigo. [...] Pois eu sei como são numerosos seus crimes e graves seus pecados: exploram o justo, aceitam subornos e enganam os necessitados: junto à porta!”, denuncia o profeta Amós (Am 5,10-12).

Registram-se, nesse período, as leis sociais com a origem profético-popular que protegem o direito dos pobres: “Você não deve torcer o direito do pobre em seu processo. Fuja da acusação falsa. Não faça morrer o inocente, o justo, nem deixe sem castigo o criminoso. Não aceite propina, porque a propina cega quem tem olhos abertos e torce até as palavras dos justos. Não oprima o migrante. Vocês conhecem a vida do migrante, porque foram migrantes no Egito” (Ex 23,6-9).

            Em 722 a.C., Samaria, capital do Israel Norte, foi conquistada pelo rei assírio Salmanasar V (726-722 a.C.), e destruída por Sargão II (721-705 a.C.). Uma parte da população de Israel Norte foi deportada (2Rs 17,6). O número dos deportados chegou a 27.920, segundo os anais assírios e as populações estrangeiras se instalaram no antigo reino desaparecido: “O rei da Assíria mandou vir gente de Babilônia, de Cuta, Ava, Emat e Sefarvaim, e os estabeleceu nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel. Tomaram posse de Samaria e se instalaram em suas cidades” (2Rs 17,24). Foi um grande fluxo populacional de deportados.

O fenômeno do fluxo populacional também é provocado pelos refugiados da guerra. A invasão e a conquista de uma região causam grande desastre e sofrimento: cidades destruídas, aldeias incendiadas, colheitas e gado saqueados, plantações e árvores frutíferas queimadas, habitantes massacrados e deportados, provocando uma grande fuga de refugiados: “migrantes, viúvas e órfãos”. Foi o caso dos refugiados de Israel Norte para Judá, na ocasião da queda de Samaria.

A arqueologia documenta um dramático crescimento demográfico em Judá: a população de Jerusalém aumentou de mil habitantes para quinze entre 722 e 701 a.C. No mesmo período, o número de assentamento nas colinas centrais de Judá passou de 35 para 120. Na Sefelá, uma estreita faixa de terra fértil entre as montanhas e a planície, houve crescimento estimado de 20 para 275. Um contingente de refugiados foi deslocado para Judá num período muito curto de tempo. Foi uma grave crise de explosão demográfica!

Em 716 a.C., Ezequias sobe ao trono de Judá, nação afetada pela destruição do seu vizinho Israel Norte, e iniciou a chamada “reforma de Ezequias ou “deuteronomista” para enfrentar a crise. Como orientação da reforma, o grupo de escribas deuteronomistas escreveu o núcleo de Dt 12-26 que contêm as leis sociais para amenizar o grande fluxo de refugiados, envolvendo os grupos sociais de estrangeiro, órfão e viúva (Dt 14,28-29; 16,9-12; 24,17-21).

 

2. As leis sociais em Dt 24,10-24

           

            A arqueologia comprova um grande desenvolvimento em Judá, tanto na capital Jerusalém quanto no interior, a partir de 722 a.C., período da destruição de Samaria pela Assíria e dos refugiados do norte para o sul. A população de Jerusalém aumenta de mil para quinze mil habitantes. A capital foi ampliada de cinco para sessenta hectares. No interior, atesta-se o grande aumento de assentamentos e de produção agrícola, sobretudo de azeite (oliveiras) com melhores prensas.

Para enfrentar a grave crise populacional e o avanço da Assíria, o rei Ezequias executou várias obras: novos bairros, chamados de cidade nova (2Rs 22,14; Sf 1,10-11); o túnel subterrâneo de 513 metros, escavado na pedra para levar água para a cidade nova; o reforço das cidades-fortaleza, como Laquis etc. As obras empregavam e absorviam muitos refugiados em trabalho penoso, semelhante ao dos escravos.

            Há famílias de israelitas abastadas no meio dos refugiados. Mas agora a maioria trabalhava nas obras e vivia de “diária”, e, às vezes, era forçada a pedir empréstimos para sobreviver, sobretudo nas cidades. Aconteciam, portanto, com muita frequência a injustiça, o abuso e a violência em juros, penhora e cobrança: “Que direito têm vocês de oprimir meu povo e esmagar a face dos pobres?” (Is 3,15).

            Era necessário proteger o direito dos pobres devedores: “Quando você fizer algum empréstimo a seu próximo, não entre na casa dele para pegar alguma coisa como penhor. Fique do lado de fora; o homem a quem você fez o empréstimo, ele é que deve sair para lhe trazer o penhor” (Dt 24,10-11). O credor não tinha o direito de invadir a propriedade do devedor, nem de humilhá-lo.

            Aliás, a penhora em si era um meio de pressionar e explorar o pagamento de uma dívida. A cobrança da penhora às vezes atingiu a uma pessoa ou família pobre em sua necessidade de sobrevivência: por isso, o Dt alerta: “Se ele for necessitado, você não irá dormir sobre o penhor dele. Ao pôr do sol você deve devolver sem falta o penhor, para que ele durma com o manto dele e abençoe você. Quanto a você, isso será um ato de justiça diante de Javé, o seu Deus (Dt 24,12-13). O pobre devedor tem só um manto que lhe serve como roupa de cama: tirá-lo seria um ato de humilhação e de crueldade.

            Ainda o Dt toca no dia a dia dos refugiados recrutados nas obras: “Não explore o assalariado necessitado e pobre, seja ele um de seus irmãos, seja um migrante que vive em sua terra, nas portas de sua cidade. Pague-lhe a diária todos os dias, antes do pôr do sol, porque ele é um necessitado, e a vida dele depende disso. Assim ele não clamará a Javé contra você, e em você não haverá pecado” (Dt 24,14-15). No mundo comercial e monetário de uma cidade, a diária é o meio essencial de sobrevivência para um migrante (refugiado ou forasteiro), que não conta com o apoio de parentesco – do clã. O pobre tem o direito de comer e viver a vida como gratuidade de Deus.

            Agora, é notável em Dt 24,10-22 um acréscimo exílico ou pós-exílico referente à teologia da responsabilidade individual: “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa do seu próprio crime” (Dt 24,16). Ao lado da noção de responsabilidade coletiva (Gn 18,23-33; Dt 5,9), que une solidariamente os membros de uma comunidade entre si e com os antepassados, desenvolve-se a idéia de responsabilidade individual na situação dos desterrados depois da catástrofe (Dt 7,10; Ez 18,1-32; Jr 31,29-30). A cada indivíduo é exigido ter mais consciência da realidade e começar a ação de superar a crise.

            Após o acréscimo, a segunda parte das leis sociais concentra-se no trio: pobre, indefeso e explorado: “Não distorça o direito do migrante e do órfão, nem tome como penhor a roupa da viúva. Lembre-se; você foi servo no Egito e daí Javé, o seu Deus, o resgatou. É por isso que eu o mando agir desse modo” (Dt 24,17-18). A aliança com o Deus libertador do êxodo é aplicada na prática da justiça para com os pobres e fracos: “Estou vendo muito bem a aflição do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor diante de seus opressores, pois tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci para libertá-lo do poder dos egípcios e fazê-lo subir dessa terra para a terra fértil e espaçosa” (Ex 3,7-8a).

No mundo do Antigo Testamento, a situação de risco do migrante, órfão e viúva estava diretamente ligada à terra como o meio principal de onde a pessoa tira o necessário para sustentar a vida. No caso da viúva na comunidade, a lei do levirato obrigava o irmão (o parente mais próximo) a unir-se à viúva, e o filho que nascesse seria considerado como filho do irmão morto para conservar a herança (terra e casa) no âmbito da família e do clã, junto com a viúva e o herdeiro. Neste caso, o herdeiro não se chama órfão.

Contudo, no contexto de Dt 24,17-22, a viúva e o órfão, como o migrante, eram os grupos ficaram sem a proteção da família e do clã com a destruição de Israel Norte. Eram os refugiados de guerra sem acesso à terra. Não tinham meios para trabalhar e obter sustento e bem-estar. A viúva e o órfão nem teriam condições de serem empregados nas obras como diaristas. Era necessário fortalecer as leis sociais para proteger e fazer justiça aos pobres e fracos.

Na defesa dos desprotegidos, o Dt retoma o antigo costume dos camponeses na colheita que deixavam para trás produtos para os pobres como oferta para a divindade de fertilidade da terra: “Quando você estiver fazendo a colheita em sua plantação e deixar para trás um feixe, não volte para pegá-lo: fica para o migrante, o órfão e a viúva. Desse modo Javé, o seu Deus, há de abençoar você em todo o trabalho de suas mãos” (Dt 24,19).

            Essa providência quanto à alimentação dos menos privilegiados é lembrada ao longo da história de Israel pela tradição popular, bem exemplificada no livro de Rute: “A moça é uma moabita, que voltou com Noemi dos Campos de Moab, me pediu para catar o restolho das espigas atrás dos cortadores. Ela chegou e ficou aqui desde cedo até agora, sem parar um só momento” (Rt 2,6-7). Rute, pobre e viúva estrangeira, com a viúva Noemi, tinha  o direito de recolher o restolho de trigos (cf. Lv 19,9; 23,22).   

            Ainda o Dt amplia a espécie de restolho: “Quando você sacudir as azeitonas da sua oliveira, não volte para bater os ramos: o que sobrou será para o migrante, o órfão e a viúva. Quando você colher as uvas da sua vinha, não volte para colher o que ficou: a sobra será para o migrante, o órfão e a viúva. Lembre-se: você também foi servo no Egito. É por isso que eu o mando agir desse modo” (Dt 24,20-22).

            Quanto à oliveira, a arqueologia comprova um grande aumento na produção de azeite em Judá, a partir da queda de Samaria, em 722 a.C. A região de maior produção foi Sefelá, com as grandes cidades, como Azeca e Laquis. A última era conhecida como uma área onde se produzia muita oliva; era o centro da coleta do tributo assírio. Provavelmente, muitos refugiados do norte que foram para o sul passam a viver na região da Sefelá, que registrou, no reinado de Ezequias, um grande aumento de assentamentos e de produção agrícola, como cereais, vinhas e oliveira.

            Ao mesmo tempo, a região passava por grandes conflitos da terra, e o povo sofria: “Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder nas mãos. Cobiçam campos, e os roubam; querem uma casa, e a tomam. Assim oprimem ao varão e à sua casa, ao homem e à sua herança” (Mq 2,1-2), grita Miqueias, camponês originário de Morasti, perto da cidade de Gat, a região de Sefelá, no período de 725-701 a.C. Havia muita violência e espoliação no campo.

Após a destruição de Israel Norte, houve um grande desenvolvimento econômico em Jerusalém e no interior de Judá. Porém, por trás da prosperidade, o país passava por uma grave crise: o jugo pesado da Assíria e sua ameaça; a violência provocada pela elite agrária a fim de obter mais lucro e poder; a presença do grande número de refugiados, muitos deles estrangeiros, órfãos e viúvas etc.

A lei social em favor dos pobres foi um dos procedimentos do governo de Ezequias diante dessa crise social. Era o meio mais importante para a subsistência dos sem-terra e da coesão social de Judá, nação que estava se preparando para a guerra contra a Assíria (2Rs 18,1-8).

 

3. As leis sociais do movimento cristão

 

Pai, santificado seja teu nome; venha teu Reino; o pão nosso cotidiano dá-nos a cada dia; perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixes cair na tentação (Lc 11,2-4).

 

“Perdoamos aos nossos devedores”, aconselha o Pai-nosso de Jesus de Nazaré, que está no Evangelho Q composto durante a década de 40 d.C., na região ao redor do lago de Genesaré ou Galileia. O cenário da Galileia era de endividamento, doença e escravidão. Uma das causas de endividamento era o empréstimo com juros abusivos, sobretudo para o pagamento de impostos. Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.), tetrarca da Galileia, chegava a receber em torno de 200 talentos por ano, valor equivalente a 1.200.000 denários, referentes ao imposto da pesca.

Ao contrário da economia de ganho que produzia o endividamento, a fala de Jesus de Nazaré propõe a economia da partilha e da solidariedade, seguindo às leis sociais do antigo Israel:

 

·         “Quando no seu meio houver um pobre, mesmo que seja um só de seus irmãos, numa só das portas de suas cidades, na terra que Javé, o seu Deus, dará a você, não endureça o coração, nem feche a mão para esse irmão pobre. Pelo contrário, abra a mão e empreste o que está faltando para ele, na medida em que o necessitar” (Dt 15,7-8);

·         “O ímpio pede emprestado e não devolve, mas o justo mostra bondade e faz doação” (Sl 37,21; cf. Ex 22,25; Sl 112,5; Dt 23,20; Rm 13,8; Mt 18,23-35).

 

Com a tradição do Antigo Testamento, Jesus, formado na tradição profética e sapiencial da aldeia Nazaré, na Galileia, proclamava a solidariedade com os empobrecidos: "Perdoamos aos nossos devedores". O reino de Deus pregado por Jesus é aquele no qual o poder e a riqueza são repartidos de modo que não haja oprimidos e pobres.

Os seguidores de Jesus de Nazaré praticavam a mesma sensibilidade do mestre, baseada na solidariedade e na crítica contra o abuso e a injustiça no mundo do império romano:

 

a)    Tribunal: “Ora, quando vocês têm processos desta vida para serem julgados, como é que tomam como juízes aqueles que a igreja não considera? Digo isso para que vocês se envergonhem. Será que não existe entre vocês alguém experiente, que consiga resolver uma questão entre irmãos? Ao contrário, um irmão é chamado ao tribunal contra seu próprio irmão, e isso diante de infiéis” (1Cor 6,4-6): No processo judicial  do Império Romano, a posição social e o privilégio legal eram usados contra os inferiores. O suborno judicial era comum, e os préstimos dos jurados não ficavam sem recompensa. Nesse mundo injusto, Paulo alertava e condenava o fato de cristãos recorrerem a tribunais civis para dirimir os conflitos dentro da comunidade, como ato de defraudar e abusar dos irmãos. As questões devem ser julgadas com o sentido cristão da caridade, no seio da própria comunidade (cf. Am 5,10-11; Rm 12,14-21).

b)    Escravos: “Quem sabe ele (Onésimo) não tenha sido afastado de você (Filêmon) por um tempo, para que você o tivesse de volta para sempre. Não mais como escravo, e sim muito mais do que escravo, como irmão amado, especialmente por mim e tanto mais por você, segundo a carne e segundo o Senhor” (Fm 15-16). Cerca de dois terços da população das cidades greco-romanas eram escravos. Eles sofriam com a miséria, a fome e a insegurança, tinham média de vida de pouco mais de vinte anos, enquanto os ricos viviam cerca de quarenta anos. Eram pessoas massacradas e engolidas pela sociedade escravagista. Paulo apelava ao patrão, Filêmon, que recebesse seu escravo Onésimo como irmão. Foi tanto um desafio quanto uma crítica à sociedade escravagista, na qual a lei romana previa penas severas para os escravos fugitivos. Segundo a lei cristã, todos são irmãos e têm os mesmos direitos e deveres em Jesus Cristo (cf. Jó 31,13; Gl 3,28).

c)    Pobres: “Escutem, meus queridos irmãos: Não foi Deus quem escolheu os pobres de bens neste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? No entanto, vocês desprezaram o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês e os arrastam aos tribunais? Não são eles que blasfemam contra o Nome sublime que foi invocado sobre vocês? Se vocês, ao contrário, observarem a Lei do Reino, segundo está escrito: ‘Amem seu próximo como a si mesmo’, estão agindo bem” (Tg 2,5-8). A carta de Tiago descreve as graves injustiças sociais praticadas pelos ricos que se enriquecem à custa de trabalhadores em sua busca desenfreada pelo lucro (Tg 5,6). Apresentando o Deus dos pobres, a carta condena a discriminação e a opressão praticadas pelos ricos contra os pobres e orienta os fieis a praticarem a lei do reino: o amor ao próximo (cf. Is 61,1-2; 2Cor 8,9).

d)    Migrantes, forasteiros e estrangeiros: “De Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos que vivem espalhados como estrangeiros (forasteiros) no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia. Vocês foram escolhidos pelo desígnio de Deus Pai, pela santificação do Espírito, para obedecerem a Jesus Cristo e serem aspergidos com seu sangue. Que a graça e a paz sejam concedidas a vocês em abundância” (1Pd 1,1-2). A primeira carta de Pedro, escrita na Ásia Menor, no final do século I, descreve a presença de grande número de estrangeiros e forasteiros que eram forçados a sair de suas terras por causa de guerras e empobrecimento, causados pela ambição e sede de poder e lucro (1Pd 2,11-12). Pelo batismo de Jesus Cristo, crucificado por causa da prática da justiça, os cristãos são chamados a viver como irmãos e irmãs, no amor ao próximo. Na comunidade cristã não há lugar para divisões, preconceitos e separação. Ela deve acolher, em seu meio, os forasteiros e injustiçadas de ontem e hoje (cf. Is 58,6-7; Mt 25,35-36)

 

O aconselhamento e a prática do movimento cristão para as questões sociais nos remetem para o mundo da sabedoria judaica, baseada na tradição profético-popular, que ensina como viver segundo a Palavra do Deus da Vida, diante dos desafios da sociedade: violência, discriminação, exploração, corrupção, miséria, fome, morte etc.: “Não explore o fraco por seu fraco, nem oprima o pobre no tribunal (Pr 22,22).

No caminho de Jesus de Nazaré, a opção de Deus pelos pobres aparece mais clara quando assumida conscientemente pelos cristãos que professam a fé em Jesus Cristo, o “Verbo encarnado”, que viveu amando e servindo ao próximo (1Jo 3,1-4,6): “Felizes vocês, os pobres, porque de vocês é o Reino de Deus. Felizes vocês, que agora têm fome, porque serão saciados. Felizes vocês, que agora choram, porque hão de sorrir” (Lc 6,20-21). 

 

Uma palavra final

“Lembre-se: você foi servo no Egito e daí Javé, o seu Deus, o resgatou. É por isso que eu o mando agir desse modo” (Dt 24,18). Fazer memória da ação libertadora de Deus em nossa vida pessoal e comunitária nos ajuda a sermos solidárias e solidários com as pessoas que sofrem. Deus nos chama e nos envia para construirmos uma sociedade na qual as pessoas tenham seus direitos garantidos.

a)    Quem são hoje o órfão, a viúva e o estrangeiro, e o que nós fazemos para que essas pessoas tenham condições de vida digna?

b)    Como o nosso agir colabora para a construção de uma sociedade justa?

 

 

  UM DEUS CIUMENTO E VINGATIVO Uma leitura de Dt 13,7-12 Shigeyuki Nakanose, svd Maria Antônia Marques Centro Bíblico Verbo   In...